O eu verdadeiro

12mar15

Em algum ponto do caminho da vida, você se perde. Mas você se perde de si mesmo. A partir dali – e só alguns anos depois você vai perceber que houve este ponto –, o seu “eu” torna-se um “outro eu”, desconhecido mas enganosamente familiar. Tão enganosamente que você acha que é o “eu”, mas este ficou lá no ponto morto.

Esse outro eu passa a viver sob a redoma das expectativas. Ele cria especulações sobre o fim a cada novo começo. Tudo que começa tem seu fim imaginado. E as expectativas brotam por uma mitose exagerada e instantânea. A cada expectativa, uma série de medos: medo de não conseguir, medo de não sair como se quer, medo de não agradar, medo de não ser amado, medo de não alcançar o que quer, medo de se aceitar. Medo de ter medo. E tudo passa a girar em torno do medo. O outro eu domina seu eu morto e você não vê deste nem mais o rastro. Ele já era, foi tomado pelos medos. Você se entregou ao medo, você não existe mais sem o medo. O medo é o pai, a expectativa é a mãe; você, a cria gerada e presa nesse poder circular, pois seus olhos não enxergam as pontas.

Quando (ou se, um dia) você finalmente conseguir ouvir os gritos abafados do antigo eu, o verdadeiro, então perceberá que está num ponto caótico. Então saberá, de certeza, que precisa retornar ao ponto morto onde se perdeu e ali sentar, meditar, tudo pacientemente, até enxergar o caminho do verdadeiro eu, o caminho que é você inteiramente. E quando você o encontrar, o medo e as expectativas se tornarão mera poeira, cinzas jogadas aos ventos, e assim sua liberdade terá o início que deveria ter tido quando era simplesmente aquele caminho que você queria, o único que deveria ter sido o certo, o único que deveria ter sido seguido.

(11/03/2015)  (23:40)

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Desejo noturno

03mar15

Então na luz do sol

O primeiro de todos juntos

O brilho de um agouro surdo

O rugir de dois reinos

Foi quando eles marcharam

Pelo ar, entre as nuvens

Foi a nova luz de medo

Da incerteza da vitória

O guerreiro e o príncipe

Vagaram nos céus

O semblante, um só

Olhares gatunos,

Segredos ocultos,

Sentimentos vãos

O primeiro deles,

O primeiro dos dois juntos

E eles marcharam

Mas não sabiam

Ninguém saberia

Da balada do triste fim

Nem mesmo os deuses,

Bardos, reis e bruxas

Ninguém saberia dizer

O caminho longo a percorrer

A estrada dos corações

Inquietos corações

Mas sinceros, sempre assim

(03/03/2015, 00:26)


Só você

09fev15

A luz do sol bateu nos olhos

Estes olhos sorridentes de ontem

De uma lembrança de um sonho

Ou talvez não foi um sonho

As folhas secas ao meu lado

Você as trouxe ontem a noite

As folhas secas ponho em mãos

Fecho os olhos

Sorrio

Lembro de tudo

Sorrio

Mentalmente revivo o ontem

E só me resta uma certeza:

Você trouxe felicidade

Você me faz bem

Só você

(09/02/2015)


E se morre o amor?
Quando escolhi
entre dois amores,
então entendi:
Se o amor morre,
nada resta

(escrito em 26/11/2014, 02:46 hrs)


Pesadelo

27out14

Eram uns pesadelos horríveis sobre a imensidão do universo. Algo lovecraftiano (mas eu, criança, não sabia ainda da desesperadora beleza de Lovecraft). Como se eu tivesse que engolir algo dez vezes maior que eu, e minha garganta não aguentaria, eu não aguentaria, o sufoco em mim me mataria. E quando acordava, a sensação de ainda estar lá, diante da magnitude infinita das coisas que não compreendemos, essa sensação era vívida e confusa, e eu, em meu íntimo, não sabia se era melhor voltar a adormecer ou encarar a realidade.

(escrito em 11/10/2014)


Zênite, Montanha Celeste – Reino do Norte. Ano 1700 dCC.

 

Ao Senhor Pierre Prybke Primmus

(também conhecido como: Pierre Dohms-Primmus, Guerreiro dos Deuses, Guerreiro Bruxo, Lorde Pierre Primmus)

 

Devo dizer que me sinto honrado em poder me comunicar com o senhor, afinal não conheço tantos que possuem tão sincero e forte coração. É uma honra e é, sem dúvidas, um prazer imensurável.

Eis que venho trazer-lhe, meu bom, notícias sobre meu sofrimento interior. Não sabe o quanto tem sido difícil desde a última vez que nos vimos, no conturbado jantar ao Castelo Real de Gauron, quando Wivy levou Ériol. Sim, quando parei de escrever – peço-lhe minhas sinceras e humildes desculpas.

Ocorreu-me, Pierre, o pensamento seguinte: como pode você aturar as infantilidades e a arrogância de Sua Graça, o Príncipe Leon V. A. C. C. C. R. Dohms? Sei bem o quanto o ama, apesar de não querer admitir isto a si mesmo. Sabe que estou certo, e eu já consigo imaginá-lo sacudir a cabeça ao ler esta parte. Mas, verdade pura: vocês se amam, de forma ligeiramente diferente, mas de igual intensidade. É puro tal sentimento que nutrem, cada um à sua maneira, mas não estou dizendo que seus atos envolvendo esse amor sejam admiráveis. O sentimento, sim. A forma como demonstram me traz certa confusão à mente.

Sobre minha dor, é a que constringe o coração e o aperta, dilacerando suas paredes pouco a pouco. É talvez das mais antigas aflições do ser humano. Sim, o amor. Não pigarreie ao ler isto, pois também sofre por amor. Nega-o, mas sente o amor no peito.

O que se há de fazer, meu caro, quando o outro lado tem dúvidas se também deseja se permitir? Diante de tanto achar, de um não saber, de tantas vezes ler “talvez”, eu mesmo começo a duvidar que quero o que desejo agora. É a dúvida que bate de quando em quando: isso é o que eu quero para agora ou o que quero para a vida inteira? Pois se quer saber minha resposta, devo proferir mais um “não sei” – e agora sou eu quem não sabe. O sofrimento de estar com o coração nas mãos de outro é desgastante como o é bater a testa todo dia na ponta da mesma pedra. Uma hora tem fim, é o que dizem. Mas este fim para mim vem com uma demora de planos divinos: exaustivamente longa.

E se acha que estou me divertindo desde que os deixei após o jantar no castelo, é tão enganado quanto eu. Saí de Órion e amei alguém, sim, de verdade amei. E ainda sinto vestígios de tal amor. Mas, como a muda que lentamente morre se não for regada, meu resto de amor está se esvaindo também.

Falar nisso me fez pensar: tudo meu lentamente vem se dissolvendo. Tudo de bom. A couraça vai se dissipando ao vento e as entranhas expelem os sentimentos e as sensações ruins que infectam todo o corpo restante.

Pode parecer que estou reclamando da minha pouca sorte, sorte esta que costuma falhar, mas que recentemente salvou minha vida em um acidente. Posso até estar errado e talvez esteja chamando de sorte a divindade, mas isso nunca saberei.

Sei que preciso de você. De vocês dois. Aliás, de todos vocês. Não sei o que fazer, nem quando (ou se) isso vai, de fato, terminar. Mas vou (sobre)vivendo enquanto aguardo, e por ser eu difícil de me permitir às lágrimas, a espera pouco a pouco me destrói.

 

Força e paz, meu bom.

 

Ass. Thiago D.


Começando

10fev14

Um sopro frio passa por sua orelha e você percebe que uma mudança ocorreu em sua vida. Na verdade, você já sabia disso, mas levou alguns dias para absorver este fato. E então, tudo aos poucos vai-lhe voltando, tudo de bom. A força de vontade, a vontade, a inspiração, e o que é mais importante, o amor próprio. Não haveria vento suficiente para derrubar o que foi construído com sofrimento mas se tornou algo admirável, uma torre de aprendizado, de erros do passado que você não irá mais repetir. Torcer para que não aconteçam coisas ruins agora é a boa redundância de rezar para que o dia amanheça. E poucas são as coisas no mundo que podem desfazer a agonia de quero-fazer-tudo-que-tenho-que-fazer que invadiu seu coração. Mas essa é uma agonia boa, que traz o cheiro e o abraço da mudança. As tentativas de reaver tudo que você sempre foi, tudo isso faz sentido, tudo é interessante quando alguém te faz feliz e te acalma apenas por ter uma voz que te agrada aos sentimentos. 


Um cigarro

27abr13

Aquela ansiedade de matar, o suco gástrico pedindo por uma mordida, mas ele olhou e viu que era um cigarro, um cigarro meio fumado (ou um terço fumado, na verdade), e colorido em várias partes, mas sentia vontade, queria, quis colocá-lo na boca e então o fez, e o mordeu, e o gosto era nojento e estranhamente necessário, mastigou-o arrancando pedaços como a um pedaço de carne, um horrível pedaço de carne com cinzas e mil coisas que deixavam o pulmão preto como um cadáver, pior que um cadáver, morto e fedendo, mas necessário, interessante e tranquilizante para sua ansiedade com tons de loucura, com cheiro de um doce estranho, com gosto de cigarro mastigado, e, mastigando-o, engoliu tudo, o estômago doeu, mas tudo fazia parte de algo importante naquele momento, tudo era real, até ele acordar e passar o dia com a sensação horrível de ter comido um cigarro enquanto dormia.


Um sussurro

11mar13

Não desejava atravessar sozinho

para a manhã seguinte

que a palidez e a frieza

do toque de sua mão

solicitando pormenores

na noite, sem dormir,

de posse do seu corpo,

não o deixaria viver


24jan13

Já conhecia cada ponto da cidade, e tudo se tornara não mais que comum. O cheiro era o mesmo em tudo: cheiro da mesmice de lugares e pessoas – estas, quase sempre, marionetes dos próprios medos e inseguranças. Era como se o tempo tivesse desistido de correr. Não tinha mais dúvidas do cansaço de estar ali – quase uma repulsa. Cedo ou tarde, teria de ir, de sair, de seguir em frente para não mais voltar. Só assim chegaria a sentir a plenitude.