Desordeno-me

28dez10

 

Há coisas e coisas, estranhas por sobre si, e fétidas. O que, me pergunto, posso fazer para deixar tal abismo?  Ó, Sísifo, daqui te vejo, tu a rolar esta pedra que torna a cair. Estúpido! Talvez minha estupidez seja assim como a tua. Por mil diabos e deuses cornudos, por que ainda estou aqui? Ajuda-me, criatura que passa, que voa sobre mim. O que és tu? Mera carniça animada, amaldiçoada que estás pelas feiticeiras dos infindáveis abismos que sinto em minha mente. Confusão reina neste estranho reino que, cheio de personagens e criaturas de puro horror, me traga e me prende à sua teia, e me degola e me estrangula. Queria eu não estar aqui. Sensações mistas de tudo enquanto, verdadeira sinestesia em cores vivas e corrosivas, e me dói, tudo isto me dói tanto que me ajoelho e olho para o monte onde a pedra ainda rola, para o abismo, para alguém que vejo no alto. Levanto e subo, corro e subo, desvio de buracos que sorriem para mim em cruel escárnio, querendo levar-me a lugares talvez mais insanos. Há gozos de deuses mortos que transitam entre o certo e o esperto, entre o bem e o conveniente, entre o eu e o nada, e o outro, e o nada novamente. Estou confuso, mas subo, e ouço gritos. Não pertenço a este obsceno lugar de tormentas. Paira aqui o podre odor dos que vivem sobrevivendo, sem ver a vida, dos que estão mortos e não sabem. Foi por acaso que vim parar aqui? Ou foi porque sou como eles? Ou porque também empurro a pedra acima e ela volta e eu volto atrás dela, e volto mais uma vez a empurrá-la acima? Ajoelho-me novamente, desta vez sem querer, mas estou apenas no meio da inclinação. O topo está tão alto, tão distante. Grito, esmurro o ar, sinto o sangue sibilar pela minha pele enquanto escorre sem pena, enquanto eu tenho pena de mim. Mais gritos, mas não meus. Arrasto este corpo, o qual fui fadado a carregar, arrasto-me para cima, o sangue formando um esbelto tapete ali em meu rastro. Preciso chegar lá, sei disso. Não aguento mais, mas só mais um pouco, e outro pouco. E chego. E o tormento acaba. Ou não? Salto, sem querer, talvez, para frente. Desço em queda livre, despenco dali de cima, sinto o ar encher-me os olhos de um sofrível ardor, mas é tão bom que o êxtase vem a mim sem mesmo ser convidado. E caio rápido. Vejo-me, outra vez, como antes, em um terreno abalado pela podridão, por estúpidos personagens, por coisas que não se deseja. E lá, bem à frente, há um morro de novo. O caminho é diferente, mas a sensação será apenas a mesma.

 


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