A mulher, a arma

25nov10

Deveria haver naquele velho bar uma iluminação melhor. Quero dizer, não é que eu não conseguisse enxergar tudo claramente – porque eu via, e revirava os olhos revendo. Mas é que, oras, é como você vive sempre no interior de um escuro quarto velho e mofado e de repente encontrar um detalhe que nunca havia visto antes, e então você vai precisar de uma luz, uma vela, ou qualquer coisa para apreciar aquilo. E era exatamente isso que acontecia. Eu queria apreciar aquele sorriso, aqueles lábios estranhamente quentes, ou pelo menos eu os achava quentes só de ver. E os seios dela? Um par de peitos bem fartos, como ver dois instrumentos sagrados, duas coisas que você sabe que te levariam até o céu ou até o inferno. Bastaria escolher o que lhe cairia melhor.

Mas este sou eu, sempre fui assim. Olhar bem, analisar tudo, milimetricamente. Estou me referindo ao fato de não ter coragem de dar um oi para uma mulher tão mulher como aquela. O que acontece na cabeça dos homens quando jogam cantadas babacas em mulheres tão raras? Provavelmente sejamos mesmo animais, nesse aspecto. Animais sedentos pelo objetivo final, o grande êxtase. Não é mesmo? Deve ser.

Aí, como que do nada, começa um sussurro na minha mente, e isso se transforma num ribombar conhecido, e lá estou eu ouvindo a guitarra do Jimmi Hendrix ecoar. O problema é que não era minha imaginação: a junkebox tava tocando isso mesmo, e foi tão…!

Com essa, tive que lembrar da minha infância. Inevitável, mesmo. O dia em que eu encontrei um livro do velho Buk na biblioteca da escola, bem escondido atrás de um Retrato de Dorian Gray e um De Profundis. Eu escondi dentro das vestes e saí. Nem me importei. Só me importei mesmo em casa, quando conheci as tão famosas “mulheres de Bukowski” (vim descobrir depois esta expressão). Ora, o sexo foi-me jogado na cara, ali, nu e cru. E então eu aprendi a falar a palavra. Porra. E nunca mais parei de usar.

Porra, e ali, vendo aquela mulher incrível, eu não tinha coragem sequer de levantar. Não que eu já não estivesse de pé. Óbvio que uma daquelas era pra homem nenhum botar defeito, pra qualquer homem dizer, depois, “agora, sim, já posso morrer”. Mas eu vou dizer exatamente o que aconteceu, e serei breve como tudo o foi.

Ela não era uma mulher perfeita, apenas. Era uma mulher perfeita e com a porra de uma arma. Quando um barbudo gordo se aproximou daquela criatura e tentou tocar-lhe um seio por cima da blusa, ela pegou a porra da arma e atacou. Simplesmente atirou nele, ali, na frente de todo mundo. Quero dizer… Que mulher!

E ela saiu. Foi embora, normalmente. Eu? Fiquei ainda mais louco. Êxtase não era mais suficiente pra me definir. Corri atrás dela, feito louco. Em um beco próximo, lá estava ela. Não sei o que diabos ela fazia ali, mas, vai-se saber… Não fiquei vivo o suficiente pra contar a história. Ela deve ter me entendido mal, de alguma forma, e, de forma ainda mais indefinida, para mim, só ouvi o barulho de um tiro. E, porra, tudo terminou aí.

 

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