Inevitável

13set10

Cinco e meia. Cheguei no horário marcado, pelo menos. Já ela… Bom, ela costumava se atrasar, e isso é tudo que bastava como explicação. Vai ver era de sua essência, personalidade, ou algo que o valha. Enfim, não me importava. Não tanto quanto outras pessoas se importariam. Afinal, meia hora de atraso era apenas meia hora.

E lá estava eu, no velho banco de madeira envelhecida por tantos quadris que por ali descansaram e pela própria natureza. Alguém uma vez me dissera que tudo que fica próximo da praia, seja madeira, ferro ou qualquer coisa, com o tempo se cansa do mar e envelhece, mesmo. Algo natural, simplesmente. Mas, e daí?

Olhei bem para o banco e vi nele nomes arranhados de quem não tinha o que fazer e decidira, por algum motivo, registrar sua passagem ali. Meus olhos barraram esse pensamento irônico quando vi meu nome. Ah, nem sei ao certo quando marquei ali. Mas, se não me engano, havia feito aquilo com um anel velho que já nem mais tenho.

Cinco e quarenta e cinco e nada. Só passaram dois anos desde a última vez que nós dois nos sentamos ali, eu e ela. Costumávamos nos ver após a aula e conversar, e rir, e ver o por do sol no mar à frente. A Avenida do Pacífico Sul atrás de mim fazia um barulhão, do tipo que se ouve na hora do rush em grandes cidades. Não que nossa cidade fosse grande. Não também que fosse pequena. Média, eu acho.

Com um bocejo, me espreguicei. Por que sentir preguiça vendo o mar tão aberto, me abraçando em uma quietude invejável? Vai ver a quietude me entediou. Na verdade quase qualquer coisa me deixa entediado quando fico quieto, quando fico parado por mais de uns dois ou três minutos. Foquei os olhos em uma família que deixava a praia. Uma mulher de corpo conservado para sua idade, um homem grisalho, uma menininha de sorriso largo e o filho adolescente, que devia ter uns catorze anos ou quinze. E lembrei dos meus quinze. Foi como me ver ali na praia, exceto porque nunca ia lá com meus pais. E também porque não tinha irmã, nem irmão. Mas era legal, mesmo assim. Era terapêutico.

E ela apareceu quando meu relógio marcou cinco e cinqüenta e cinco. Teria levado um susto com aquela mulher alta e esguia, vestida em vestido cinza e com um batom exageradamente vermelho que fazia os lábios quererem saltar do rosto. Linda, muito linda. E seu cabelo solto brincava com a brisa do entardecer.

– Hoje faz exatamente dois anos, não é? – disse ela, porque não foi exatamente uma pergunta; mais parecia afirmação. Eu não tive tempo nem vontade de falar, e ela prosseguiu: – Espero que esteja pronto. Que tenha dado tempo pra você… arrumar sua vida.

– Tudo bem, aproveitei esse tempo. Não posso dizer que estou pronto, mas não há opções. Então…

Balancei a cabeça duas vezes, conformado. Afinal, não havia mesmo uma única alternativa. E foi assim: ela estendeu a mão direita, eu aceitei. Então caminhamos até bem próximo do mar. E foi esse meu fim, o fim da minha vida, o encontro definitivo com a morte.

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