Praeludium

08set10

É incrível pensar agora naqueles tempos. Incrível, e fantástico, e realmente me sinto invadido por um ar nostálgico, como se todo o meu corpo e mente, como se tudo em mim quisesse reviver aquela época, segundo por segundo.

E eu respiro, profundamente respiro…

Aqui, recostado na varanda deste castelo, onde tudo observo… Ou, melhor dizer, quase tudo. Porque a vastidão de florestas, todo esse verde escuro que vejo projetar-se para além de onde meus olhos alcançam, enfim, tudo isto me traz os bons ventos da companhia daqueles que tanto sangue derramaram quando comigo estiveram, quando juntos percorremos os cinco reinos e, mais que isso, percorremos um universo. É, eu posso chamar assim. Um universo. Parece exagero? Não, não é. É até modesto, devo advertir. E ao afirmar tal coisa, não quero ser tomado como um homem cujo raciocínio é defasado por ilusões.

Ilusões? Eu rio disto. Não creio ter visto ilusões fortes o suficiente para que eu as pudesse tomar como falsas. Tudo foi real, eu sei que foi. As marcas em mim, as visíveis e as intocáveis, elas me provam o quão verdadeira era a neve caindo, ou a chuva, ou as folhas. E as emoções, que muitas e muito forte foram.

Que curioso, agora sei, o modo como tudo ocorreu. Mais que curioso, é interessante. Foi interessante. A vida nunca foi tão extremada e crua como quando percorri quase toda a vastidão de terras emersas do planeta, quando visitei lugares que somente eu vi, e vi coisas que ninguém gostaria de ver, nem de viver. Mas eu o fiz. Quase pereci, mas cheguei longe o suficiente. Se foi o fim? Não. Uma vez me disseram que o fim só existe aos que tem uma mente fraca e um coração sem vida.

E agora, lembrando disso, vejo aquele olhar firme e misterioso. Eu o vejo, eu ouço a voz dele… Em minha mente, nos oceanos de pensamentos e memórias que nela residem, com os quais viverei até o último suspiro.

Tenho saudades, é fato – isto é óbvio para qualquer um que entenda as palavras que então digo. Queria vê-los novamente, imediatamente, queria a presença dos que mantiveram-se ao meu lado incondicionalmente, aqueles que juraram amizade a mim, ainda que tenha sido um juramento não dito, algo que só o coração sabe sentir calado e quieto.

Está frio.

Abraço meu corpo e afago-o com as mãos, tentando esquentar o sangue que pulsa em mim e não consegue descansar, e assim parece querer avisar-me de que ainda estou vivo. Vivo, mas parte de mim se foi. Levou junto muita coisa boa e ruim, mas se foi, e não queria que tivesse sido desta forma.

Volta ao escuro o olhar penetrante de um homem que todos viram, mas quase ninguém conheceu. Ao escuro dos meus pensamentos, e deixo ficar assim, porque sei que não esquecerei de tudo o que ele me fez ver. Foi um caminho tortuoso até aqui. Nós, nós todos, incluindo aqueles a quem mais me afeiçoei por toda a vida, nós quase perecemos. Ela quis nos matar, a deusa, ela desejou isso mais que a tudo. E teria conseguido, mas não há como parar os que têm sede de viver. Nada nem ninguém pode parar os que são filhos deste planeta e sabem o que significa aquela sensação de quando alguém fala em Orion.

-Thiago Dortt.

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