Sonho?

30jul10

 

Sonho?

Nada de meia noite. Meia noite não significava muito naquele instante, já perto do amanhecer. Quatro, três, cinco da manhã – quem se importava? Em sua mente, só ela importava. A insônia lhe corroia a sensação de um errôneo descanso, ali, na cama com colchão envelhecido e a madeira rangendo a cada movimento seu. Virou pra um lado, pro outro. Nada. Maldita insônia.
Ela curaria a sua insônia. Mas ela estava longe. Deveras longe, aliás. Se tivesse pelo menos razoável habilidade em calcular distâncias, imaginaria algo exorbitante, mas, enfim, não tinha nada disso. A distância que calculava era só aquela, muito próxima, fundida, entre sua mente e a merda da insônia. Se não tivesse se desgastado antes, teria dormido.
Debaixo do travesseiro onde afundava sua cabeça – agora mais pesada que nunca – dois cogumelos. Ora, seriam só dois mesmo? Ou um partido em dois. Ou talvez nem cogumelos fossem. Se não tivesse tomado café antes, teria dormido.
Não, não teria. Seus dedos almejavam tocar alguém… E, se fosse só pelos dedos, nada demais. Seus lábios, contudo, imploravam ajoelhados em brasa para sentirem, tocarem os lábios dela. Mais que os dedos, muito mais.
Apertou os dois cogumelos nas mãos – ou o que quer que fossem. A sensação macia foi boa, o cheiro era agradável. Então…
Por que não?
Aí foi que a vontade aumentou. A escuridão das quatro paredes altas era testemunha de seus olhos brilhando em uma inexistente luz – naturalmente, afinal de contas – e sua própria mente poderia mesmo acusar-se, caso assim fosse necessário. Acusar do desejo. Suavemente, mas não devagar, pôs os cogumelos a descer pela sua língua. O gosto estranho nem era tão estranho. Seria, se aquilo estivesse acontecendo há um mês e pouco mais, na primeira vez. Agradável não era bem a palavra, mas…
A insônia foi tornando-se algo diferente, com o caminhar dos minutos. Boa sensação, confusa, distorcida, muda. Ainda era pouca, mas seu coração já dançava com o sangue não mais uma valsa, e sim um rock dos anos 70, dos que mais gostava de ouvir. O cheiro do som do rock produzido pelas guitarras e baterias do coração pulava do sangue fervente para seus ouvidos – e já não sabia mais quantos ouvidos tinha, nem bocas ou qualquer coisa. Contar era inútil, então.
Pensou nela. Tocou imaginariamente o gosto entorpecente de seu sorriso, aquele largo sorriso cercado por lábios intensos. Belos lábios. Sentiu o cheiro daquilo tudo. Como era bom.
O sonho que ninguém sonha ou canta veio em um flash de luzes coloridas e flamejantes, como um raio de fogo brilhante caindo por todas as direções. E seu corpo era o centro do raio infinito. E, na verdade, tudo ficou infinito. Infinitamente distorcido.
Acenou – ou tentou, ou pensou que houvesse feito isso – para seu corpo há alguma distância pesada. Viu seu meio sorriso tão tranqüilo que pretendeu, apenas por aquele momento, ficar ali para sempre. O que salvou o momento e jogou essa ação para as profundezas das sombras do quarto – sombras estas que, também, tornaram-se de múltiplas cores – foi pensar nela. O grande desejo, ela.
Voou, nadando entre as correntezas do gélido ar da noite. A noite também lhe sorria, mas de forma indecente. Até diria erótica – ou talvez pornográfica. Sempre imaginou que a noite fosse uma pessoa com um sentido intenso, um desejo por satisfazer alguma necessidade primitiva. Algo como sexo. E nem soube o que era sexo quando seu corpo flutuante – não o físico, pois este havia ficado lá, dormindo em alegria – atravessou o ar a mergulhos e braçadas lentas e poderosas.
As casas e prédios lá embaixo eram tão lindas. Era tudo tão lindo, que, pelo amor de todos os deuses do universo, queria sentir aquilo para sempre! Passear pelo mítico mundo onde agora se encontrava – ou se perdia? –; queria muito que não terminasse.
E foi assim que chegou à casa dela. Era mesmo uma casa? Parecia tanto com um olho verde, quase azul ou cinzento, mas verde mesmo. Era redonda. Era um olho, só podia ser. Igual ao olho que queria encontrar. Que maldita casa! Queria lhe confundir. Cuspiu nela. E, lá de cima, de dentro de sua boca, uma bolha dourada caiu, mudando depois para prateada e ficando, finalmente, vermelha. E assim tocou o que seria a íris do olho-casa.
Seu corpo – o qual, sinceramente, não sentia – foi sugado numa velocidade impressionante para dentro do olho, que tremeu. O fôlego sumiu, já não mais respirava, o coração não batia. De repente pensou que não tinha mais toda aquela inutilidade de órgãos internos.
E lá estava. Ela.
Sorriu, sorriu como uma explosão de fogos ou de bombas em uma guerra infernal. O sorriso prolongou-se para todas as mil dimensões que conseguia ver. A sinestesia surreal, de sentidos e sentimentos, foi tudo o que envolveu sua mente. Aproximou-se, sem sequer sentir pés, pernas, e sem saber se ainda sorria; mas aproximou-se do corpo dormindo. Os olhos eram também verdes. Verdes, lindamente. O sorriso era largo como sempre soube que deveria ser. Tocou. Tocou tudo, de uma vez só. Sua mão não muito pequena abrangeu o espaço que envolvia o sorriso perigosamente prazeroso.
A distância agora inexistia. Já não sabia o que fazer, e o desespero atingiu suas entranhas – mas parecia não ter entranhas! Aquele bloqueio trouxe uma sufocante tristeza. O corpo ainda dormia, sorria, em uma inquebrável paz. Ou melhor, em uma sádica felicidade. Não sabia o que fazer, só sabia que não deixaria aquilo crescer dentro de si. Olhou para ela, a pessoa, e deixou seus olhos se fecharem, agora unos ao universo. E tudo sumiu.

(Publicado no “Recanto das Letras” em 10/04/2010 – aqui)

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