Deriva

10nov17

 

Um navegador…
Uma baleia vem
Um narval
O chifre
O canto
O mar vem
O navegador vai
Vai sem destino
Vai com aperto
O navegador está só
Ao fim abraça
Está só
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Perdido

10nov17

Isso vai causar uma explosão. Diga-me: foi tudo em vão. As noites de dois corpos juntos, suados abaixo do ar condicionado. Dor forte que vem agora, o vazio que corrói tudo por dentro e apaga os momentos bons sorrateiramente, lentamente, assustadoramente. Vai tudo, e quando pensar que não, só restará o caos gerado por essa tormenta de finais tristes. O risco que decidiu correr, o abismo de deixar ir, a incerteza de um certo não querer continuar. Isso, tudo isso, explodirá, o efeito passará, perderá, perderei, perdi. Perdido.

(escrito em 08/11/2017, às 01h00min)


Baleia

30jul17

Talvez uma baleia azul-cinzenta voando sobre o oceano, num céu nem tão nublado, mas retumbante de se olhar, talvez seja essa uma pura representação do onírico na minha mente. Uma baleia, voando, o canto da baleia voando sobre o mar…

 

(30/07/2017, 04h15min)

Velório

09maio17

“Não pode fechar as portas de madrugada. Faz mal. No velório de Dona Maria, ficamos só nós quatro esperando até de manhã”. A conversa era em tom baixo, em respeito à defunta. No terreiro da casa, como dizem no interior, pessoas se agrupavam em vigília sutil. Eu entendi o que era um vigília a um morto. No interior, as pessoas fazem isso com rigor. Tem café, tem caldo, tem biscoito, tem muita cadeira. Não podia ter vela porque ela era crente. A rezadeira, que mora ali em frente, não podia rezar, também. Não ia nem tentar, porque sabia como eram os crentes. Ela não disse, mas eu notei no semblante.

E, antes disso tudo, coisa de dois minutos antes… Eu olhei pro caixão, horas depois de ele ter sido colocado ali na sala. Horas depois de eu ter chegado do trabalho e passado pela sala direto, como que ignorando a presença fúnebre. A presença de uma ausência. Ela sofreu em seus últimos dias. Não andava mais e, aos poucos, deixou de falar, de lembrar, de comer, de tudo. Eu ajudei a levantá-la três vezes do chão. Dormia em um quarto só, a porta aberta, o teto forrado. Eu, sempre o último da casa a dormir, ouvia quando ela estava ao chão, gritando ai ai ai, chamando por alguém, me ajuda, eu caí, eu caí. Desesperador. A dor desespera. Desespera saber que, um dia, posso ficar assim. Qualquer de nós pode. Desespero pensar nessa dor. Não sei como é existir assim, como é a sensação, se é que se sente. E olhar para aquele corpo sem vida, no entanto, tão igual a quando era vivo, foi estranho. Foi incomum, quase que apático. Como que esperando ela tentar se levantar. Não tem muita diferença do cadáver pro corpo vivo, aparentemente. Afinal, somos isso. Ao pó retornarás.

 

(09/05/2017, às 00h07min)

Família

19dez16

Agora está frio. Mas antes de ontem, por volta desse horário, eu estava voltando do churrasco em família. Família do meu pai. Quando cheguei lá, antes de ontem ontem, por volta das sete e meia, minhas duas irmãs me receberam. Meu pai me recebeu também e me exibia, orgulhoso, a todos os presentes, parentes, irmãs, irmãos, vizinhos, amigos, minha avó também estava lá. Eu sentei ao lado dela. Toda hora alguém trazia cerveja para mim. Cerveja é legal – com meus amigos. Mas… Sabe? Eu olhava a todos, observava meus familiares paternos. E naquele movimento deles, aqueles corpos falavam de alguma forma, e eu ficava perguntando a mim mesmo… Aliás, eu ficava pensando: o que eu tinha em comum com aquela tia? E o que aquela minha irmã tinha no rosto que alguém diria que parece com o meu rosto? E meu pai, eu pareço com ele? Ele está quase careca, eu não quero ficar careca (agora meu namorado diria, corrigindo-me: calvície é herdada da mãe). A verdade é que o que eu estava fazendo se tratava, nada mais, nada menos, do que uma tendência de confirmação. Isso é, eu estava tentando interpretar o que eu via de modo a confirmar o que eu queria acreditar. Eu queria acreditar que eu não parecia em nada com eles. É estranho – e até meio vergonhoso, eu diria –, mas aquelas pessoas têm muitos traços que eu meio que repudio. Todos foram amáveis comigo, e, por isso, eu me sinto um pouco mal de dizer isso. Mas é isso. Eu não quero admitir que tenho os traços grosseiros das minhas irmãs, as marcas de expressão do meu pai, ou algo mais que meu cérebro não consegue admitir nesse momento. Família é complicado, né. Mas da minha avó, eu fiquei com tanta pena. ‘Tadinha. Está com Parkinson e mal consegue andar sozinha.  A velhice é tão cruel. Bem mais que a morte. Não sei se quero voltar lá novamente, mas não porque eu não queira revê-los. Talvez porque não quero sentir esse estranho repúdio novamente.

(19/12/2016, 01:04 hrs)

sentido

28out16
Eu não sei qual o sentido da vida. Eu gostaria de saber. Será que vivemos em uma matrix? No final, morremos e… nada mais? Pensar isso é desesperador. Não quero morrer. Mas ao mesmo tempo… Eu não sou feliz – talvez nunca tenha sido, de fato. Terceiro namoro e não sei se namorar é pra mim. Não sei se o curso em que me formei é pra mim. Não sei se essa vida é pra mim. Meu trabalho definitivamente não é pra mim (eu espero ler isso em alguns meses e dar graças a deus por não mais estar nesse trabalho sufocante). Eu só quero que esse momento ruim acabe. Qual o sentido dessa vida? Tem sentido? Eu só tenho sobrevivido. Quero viver, voltar a viver. Se é que um dia realmente vivi.

 


Em vão

16out16
Achei que a falta era de você
do que vivemos, enfim…
Mas não vi o erro
Que foi te conhecer
Não que eu tenha errado
Querendo do meu lado
Com coração perfurado
Do teu veneno em forma de amizade
que nunca foi verdadeira…
Em vão,
Todos os esforços
Anos perdidos
Não mais, porém
Pois eis aqui:
Abri a janela do último andar
Respirei fundo, olhei lá embaixo
Empurrei você
Caiu
Alto
Longe
…Adeus.
(16/10/2016. às 16:42 hrs)

Por que o seu fantasma ainda me persegue?

Eu não já havia superado? Dia desses eu tive o doloroso prazer de ver você em um sonho meu. Não entendi, foi de repente. Eu nem havia pensado em você no dia anterior. Não teria problema em vê-lo nos meus sonhos, mas quando lembro das coisas que me falou… Quando lembro que disse que preferia que eu engolisse seus livros a ter que recebê-los de mim…

Mas agora estamos em outras vidas, outros caminhos. Com outras pessoas. Imagino se estamos com as pessoas certas. E, de imediato, ao imaginar isso, penso que posso ainda ter algum desejo por você. Se eu tiver, é errado? Como definir isso, eu não sei.

Talvez o erro tenha sido aceitar você dar um passo adentro em minha vida. Com você eu nunca estive tão sozinho. Incrível, né? Mas era assim que eu me sentia na época.

Quem sabe eu consiga um dia superar a dor que você me fez sentir e os cinco quilos que me fez perder no poço de tristeza que me deixou. Afinal, como disse Hernando, no final todos sermos julgados pela coragem em nossos corações.

E, sabe? Hoje eu vejo que já odiei você, já tive nojo de você. Mas agora só sinto indiferença. Agora vejo que, quando a gente se conheceu, você era uma pessoa tão perdida em si mesma que só queria alguém que te indicasse quem você poderia ser. E, aqui entre nós, ainda bem que eu não fui essa pessoa. Ainda bem mesmo.

(escrito em 07/06/2016, às 12:00 horas)


Covardia

03ago15

Eu tenho medo dessa vida

Dá medo de tanta coisa

Medo de não ser livre

Medo da dor, medo de sentir

Medo de amar e de não amar também

E medo de não ser amado…

Medo das pessoas

Das pessoas que têm medo

Medo do medo das pessoas

Medo de ter medo

Medo do fim

(03/08/2015)  (12:48 hrs)


De tudo que surge, um pouco de eufemismo vem junto. Talvez seja melhor parar de procurar explicação pra tanta coisa, pois nem tudo tem uma. Existem caminhos que não tem bifurcações, tampouco desvios ou curvas. Caminhos retos e cinzas – todo dia os mesmos passos. A fuga torna-se uma necessidade imprescindível, apesar de rara possibilidade. A contemplação do que poderia ter sido vem forte, mas não há mais expectativas, pois todas as sementes destas coisinhas cruéis desapareceram. A alma sussurra numa melodia ora crescente, ora minguante, como não poderia deixar de ser. As palavras são vomitadas por cima de uma língua travada, simbolizando a fechadura da porta para o coração. E essa coisa toda se torna tão impossível de se vencer que há apenas a entrega, mas uma entrega desafiadora, sabida de que nada vem de graça, de que nada vem a maior ou a menor. É tudo um mar, e o viajante navega até retornar para sua casa, o único lugar onde consegue dormir em paz.

(07/07/2015) (20:26 hrs)